Uma leitura de L’attente l’oubli, de Maurice Blanchot

Rafael Atuati


O sentido de toda esta história era aquele de uma longa frase que não podia ser fragmentada, que só encontraria sentido no fim e que, ao final, o encontraria apenas como um sopro de vida, o movimento imóvel de todo o conjunto. (BLANCHOT, L’attente l’oubli, p. 20)

Enquanto estas linhas se escrevem, no terceiro andar de um prédio de esquina, onde o praticante atende, uma jovem mulher se banha, em um apartamento do edifício em frente, dois andares abaixo.

Nota 1: A tradução dos fragmentos de L’attente l’oubli aqui reunidos foi generosamente revisada por João Gomes, quem ofereceu sugestões preciosas, quase todas acolhidas no texto. A (ir)responsabilidade pela tradução, no entanto, cabe exclusivamente à imprudência do nome que encerra este escrito: abrindo-se à ausência da leitura.

Nota 2: Este trabalho foi apresentado nas Jornadas de Encerramento das Formações Clínicas do FCL-SP 2019. Também foi apresentado no XI Encontro Outrarte: Da sublimação à invenção: Ramificações do Real, realizado na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

Nota 3: Psicanalista e escritor. Membro do Fórum do Campo Lacaniano-SP (FCL-SP), da EPFCL-Brasil e da Internacional dos Fóruns (IF-EPFCL).


1. É a voz que te é confiada, e não o que ela diz. O que ela diz, os segredos que você recolhe e que você transcreve para lhes fazer valer, você deve trazê-los de volta lentamente, apesar de sua tentativa de sedução, em direção ao silêncio que você antes hauriu neles. (p. 10)

Ele lhe estende um simples sinal; ela o lê como um “venha”. Ela se recosta no divã e se larga a falar. Ele se mantém em suspenso com uma questão: poderia ela falar? Ela, para poder falar, lhe demanda: “Faça com que eu possa falar com você.” (p. 12).

Todo o percurso de fala dela se orienta pelo desejo de um dizer.

Uma das proposições de Lacan para nomear a experiência analítica: uma práxis de fala. O dispositivo analítico se oferece aos falantes para que se abandonem às palavras que ali compareçam; coloca em suspenso o “quem” fala para que as palavras se escutem; na escuta das palavras poderia advir uma hiância, uma diferença nas palavras, que habilita sua escuta.

A figura do esquecimento comparece, em L’attente l’oubli, como o lugar do qual a falante demanda a um parceiro desconhecido um poder: falar. A espera se apresenta como um não lugar do qual este parceiro se serve, advertido do esquecimento de onde nasce a demanda, para responder sem responder: sublinha o que ela lhe diz, repete as palavras que lhe escapam, sugere, às vezes com o tom de sua voz, o que ainda precisaria se dizer.


2. O que ele pressente é que ela espera que ele a leve longe o suficiente para que a lembrança se lembre nela e possa se expressar. É isso que eles não cessam de evocar a todo o momento. (p. 19)

A espera e o esquecimento circulam nesse espaço de fala fabulado. Ela, esquecida sem se esquecer, fala portando uma espera. Se pergunta o que deveria dizer; ensaia uma resposta:

3. Aquilo que, se eu o dissesse, destruiria essa vontade de dizer. (p. 19)

Ele alcança escutar nas margens do que ela diz, na materialidade de sua fala, uma outra fala: a riqueza de uma linguagem anterior. Essa escuta se habilita, no entanto, com outro esquecimento: um esquecimento que deveria entrar no esquecimento.

Lacan (1968-69/2008), no Seminário 16: de um Outro ao outro, sustenta que a essência da teoria analítica seria um discurso sem palavras. As pequenas letrinhas do discurso analítico teriam a vantagem de nada dizer: essencialmente. Elas, como o analista, apenas mostram; depositam-se em um limiar do saber, fazem semblante, aguardam que se as leia e, talvez, se depreenda daí algo de um fracasso.

4. Ele não pôde se impedir […] de se sentir ligado a ela por esse fracasso. Ele não entendia bem por quê. (p. 9-10)

A tríade consagrada desde Freud – inibição, sintoma, angústia – passa a ser tratada, no ensino de Lacan, para além de hipóteses nas quais relações de causa e efeito poderiam arrogar-se um saber objetivo sobre a subjetividade. O saber do analista, como douta ignorância, saber literal, se tece à margem do que se convencionou chamar de “conhecimento”. O discurso do analista se enuncia do lugar de um esquecimento advertido: circunscrito literalmente pelo que não se pode lembrar. Supõe, aí, um pequeno objeto: a causa do esquecimento; a causa da espera.

O esvaziamento dos sentidos dos ditos no discurso analítico até o anteparo último do semblante faz supor ali outra “substância” da qual se encarrega de tratar; uma substância insubstancial, imemorial: o gozo.

O gozo: a latência de toda espera; o que não se deixa esperar.


Lacan (1977, 11 de janeiro), no seminário L’insu, afirma:

[…] o significante, é disso que se trata no inconsciente, e o fato do inconsciente é que, em suma, se fale… […] que se fale sozinho, porque não se diz jamais uma única e mesma coisa, salvo se se abre a dialogar com um psicanalista. Não há meio de fazer de outra maneira senão receber de um psicanalista essa alguma coisa que, em suma, incomoda […] Com a linguagem, nós latimos diante dessa coisa, e o que quer dizer S(A/) […] é que isso não responde.


5. Ele tivera com frequência a impressão de que ela falava, mas que ela não falava ainda. Ele esperava, então. Ele estava, trancado com ela, no grande círculo movente da espera. (p. 12)

Ao longo de sua fala, durante a noite, ela experimenta, ocasionalmente, as incidências da verdade: prova a angústia. Se recusa, logo, a continuar falando. Pede, insiste a seu parceiro que lhe dê isso que ela supõe a ele possuir. Dê isso para mim. Ele se abstém. Não lhe interroga. Ela afirma que, mesmo em seu silêncio, ele não a deixa de interrogar. Constantemente.

Na situação analítica, toda demanda é lida como demanda de amor, de completude, de impossível. Uma fala esquecida que ainda não se esqueceu se dirige a esse horizonte inalcançável; arrisca-se a experimentar, na recusa do analista, em seus cortes, ecos de uma frustração que se repete.


6. Então ele via melhor em que extraordinário estado de fraqueza ela se encontrava, de onde ela tirava essa autoridade que, às vezes, a fazia falar. […] Ele sabe desde sempre que não há nada que não possa ser exprimido com as palavras mais comuns, mas sob a condição de que ele mesmo pertença a esse mesmo segredo, ao invés de conhecê-lo, e renuncie à sua parte de luz nesse mundo. Ele nunca saberia o que ele sabia. Era isso, a solidão. (p. 20-21)

Diante da frustração que um analisante experimenta com suas palavras, o analista espera. A escuta analítica se deixa afetar pela superfície gozosa das palavras, pelo dizer que permanece sempre aquém, sempre além, dos ditos; sua atenção singular, vagando nas fronteiras dos sentidos, indica a todo esforço de se dar um arremate último aos ditos, o seu naufrágio. Naufrágio donde poderia advir um logro – precário: o reconhecimento de algo que os acompanha a uma distância, a uma proximidade sem proximidade, que assina cada um dos ditos com sua marca, ausente: a letra: pura diferença.

O que ela deveria dizer poderia ser dito uma única vez. Ele deveria ouvir isso. Ela pensa que se o dissesse uma única vez, o diria sempre. Ele concorda. Ele sabia, e lhe parecia que ela também sabia, que havia algum lugar no quarto como um vazio.

O analista, em seu ato, com sua presença, mantém aberta a hiância entre as palavras e as coisas. Nessa lacuna, guarda-se uma possibilidade: uma fala que passa a se escutar poderia reconhecer o destino das palavras; seu trajeto errante em torno de um vazio que as atrai – e as repele.

7. Ele se deu conta de que só havia escrito para responder à impossibilidade de esperar. Tudo o que foi dito então tinha relação com a espera. Essa luz o atravessou, mas somente o atravessou. (p. 39)

Em diversos relatos de passe, comparecem tentativas de descrição de um momento-chave, durante a travessia da fantasia, que pode advir em um percurso analítico: um acontecimento singular em cada caso, cuja dificuldade de se expressar faz com que suas narrativas recaiam em uma metáfora já desgastada, mas que se repete: a experiência de um clarão.

Essa luz: ocaso do esquecimento, meio-dia sem sombra, fulgor oblíquo do mistério; em sua ausência de mistério.


8. É a morte, ela dizia, o esquecimento de morrer que é a morte. O futuro enfim presente. (p. 64)

Ela lhe demandava um poder: falar. Nas errâncias dessa demanda, ela chega a um ponto em que nenhuma fala seria mais possível: o esquecimento que permitia a sua fala esquecida fora, por um breve momento, esquecido. O esquecimento do esquecimento impede a espera; eclipsa o desejo.

O que ela se lembrou, esquecendo, a impediria de continuar falando como antes.

9. Faça com que eu possa falar com você. [Ele responde]: – Sim, agora fale comigo. – [Ela]: Eu não posso. [Ele]: – Fale sem poder. (p. 64-65)

No instante em que o esquecimento no qual sua fala se amparava falha, ela se lembra. Nomeia a morte: oferece-lhe um lugar em sua fala. Ele, só então, lhe diz sim: lhe convida a falar com ele. Ao afirmar que ela não poderia, ele lhe deixa uma pista: Fale sem poder.

Falar sem poder falar: vislumbrar uma inaudita potência no estado de impoder de uma fala.


10. “Eles não falavam, eram os inquiridos de toda palavra ainda a ser dita entre eles.” (p. 86)

A subversão do sujeito, em seus postulados da lógica do significante e da divisão subjetiva, implica uma mudança de posição aos falantes: ao falar, estes seriam menos falantes do que falados; ao pensar, seriam habitados por pensamentos que se pensam neles à sua revelia. Um artifício que cada analista é convocado a sustentar em seu ato, instituindo o inconsciente como possibilidade ética diante do insabido.

Na escuta clínica, toda vivência traumática se remete a uma experiência imemorial. O discurso analítico é sem álibi: devolve a pergunta pelo sofrimento a cada vivente que se interpela por ele. Tal radicalidade interdita o lugar de vítima ao divã.

A situação analítica convoca as palavras que acompanharam uma vida a confessarem sua ausência: de culpa. Os malditos significantes-mestres que teriam comandado o destino errante de um vivente poderiam retornar, após terem sido expulsos do furo do parlêtre, com uma questão renovada; pouco mais, pouco menos, bendita: o que teria sido da vida sem nós?


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