Rafael F. Atuati
A instância da letra no discurso analítico orienta uma escuta: oferece, como o reluzir dos faróis, uma via de leitura do que seria o funcionamento do significante; permite ao analista supor o que atuaria como causa por trás dos semblantes.
A letra: alteridade que habita o falante; marca que acompanha as palavras com as quais alguém, ninguém, tentaria dizer-se; não podendo se dizer.
Advir ao um da letra: acolher o que objeta interpretações delirantes destinadas a explicar, dar razão a um sintoma: abrigar o devir desse sinthoma.
Advir à letra: extrair-se do saber: encontrar…
Durante um percurso analítico, as incidências da angústia — o afeto que não engana — naquele/naquela que se dá a falar, apontam indicadores clínicos que demandam atenção àquele/àquela que escuta. A angústia pode comparecer diante da presença do analista, de um lapso em uma fala, de um silêncio que se insinua nos vãos das palavras, da frustração que emerge ao se constatar a impossibilidade de apreender o que escapa aos ditos: falhando em dizer-se.
Nota 1: Conviria, me parece, manter a palavra cura em latim quando se trata de abordar a direção do que se traduziu em português como “cura” ou “tratamento” em psicanálise. Neste texto, tal operação convidaria as leituras a uma operação em três tempos: (1) o ressoar das conotações ensejadas pelas possíveis traduções de uma palavra já desaparecida; (2) seu silenciar progressivo, em fading, sob a atração de um ponto ao infinito; (3) o acolher de um literal litorâneo no corpo do texto: cura como o sem-cura; como a produção do incurável.
Nota 2: Este trabalho foi apresentado nas Jornadas de Cartéis e de Encerramento das Formações Clínicas do FCL-SP 2020.
Nota 3: Psicanalista e escritor. Membro do Fórum do Campo Lacaniano-SP (FCL-SP), da EPFCL-Brasil e da Internacional dos Fóruns (IF-EPFCL).
Os momentos de angústia em uma psicanálise apelam a uma leitura que poderia decifrá-los. Decifrar, no discurso analítico, não é o mesmo que descodificar uma mensagem, traduzir um código passível de tradução em uma ou outra gramática.
Decifrar é traduzir, sem traduzir, o impossível de se traduzir.
Decifrar: acolher o intraduzível do que se perdeu; do que apenas se dá a entrever: um brilho opaco: a letra?…
Os modos como cada qual pode se haver com isso que se insinua, em diferentes momentos de um tratamento, servem de indicadores que poderão compor um pensamento clínico com o qual um analista se posicionará na direção da cura de…
A aposta na materialidade da letra como via de acesso adequada — escritural — ao discurso analítico esteve em causa desde o início do ensino de Lacan, nos anos 1950. A letra, como suporte material do significante, sua estrutura essencial, estaria pressuposta por trás da fala do analisante. A estrutura institui o âmbito da leitura do analista: um outro lugar em que o texto da fala analisante poderia ser auscultado, deslido em uma determinada ordem que o levaria para além da leitura: devolvendo-o ao essencial de sua verdade; de seu gozo.
A não-leitura que o analista sustenta a partir do ato analítico — ato que se institui em sua ausência de leitura — dá ensejo a que uma fala analisante faça sua travessia. Atravessá-la, não sem o devido tempo, é preparar-se para se despedir das palavras que orientaram o percurso fabulado de um vivente, tornando-o possível; dissimulando o impossível.
Em Radiofonia, Lacan retoma a figura de Sócrates ao dizer que, no ente, é preciso tempo para fazer-se ao ser. O psicanalista, figurando alguém, suporta esse tempo enquanto for necessário àquele que vem se dizer, até que este possa, instruindo-se do semblante que o analista oferece em seu ato, advir à letra.
Advir à letra: dar lugar à falha pela qual a falta-a-ser fracassa em dizer-se: passagem dos ditos que colonizam uma fala esquecida a um dizer que os testemunha a uma distância: que é proximidade.
Advir à letra: reposicionar-se diante do trabalho das palavras; pensá-las, dispensando-as do lugar que se abre a partir de uma ausência não-significante; refratária aos significantes. Experimentar um gozo outro; opaco; inexistente: a letra que advém, sem poder… advir: abrir-se ao sentimento da…
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- Na Proposição de 9 de outubro de 1967: sobre o psicanalista da Escola, Lacan sublinha a prevalência do saber textual para a prática da psicanálise — em extensão e intensão — em relação à noção referencial da linguagem. Reitera que a psicanálise se sustenta a partir dos textos de Freud e que a prática do psicanalista guarda vizinhança com a do sofista e a do talmudista.
- A superfície literal com a qual o discurso analítico propõe sustentar uma via própria de abordagem de seu objeto — uma hiância no saber — habilita o uso de artefatos escriturais como esquemas, grafos, fórmulas lógicas e a importação de recursos de outros discursos — como os objetos topológicos — a fim de oferecer um suporte contra-intuitivo ao pensamento.
- Os matemas dos discursos, desenvolvidos ao longo do seminário O avesso da psicanálise, propõem-se a pensar o funcionamento de cada um dos quatro discursos instituídos na teoria analítica. Em uma estrutura tetraédrica constituída por quatro lugares e quatro letras, duas barras e seis flechas — sendo uma delas rompida —, os discursos nomeados como o do mestre, do universitário, da histérica e do analista articulam de diferentes formas o funcionamento significante como modos de produção de satisfação do ser-falante. Cada um dos discursos encontra uma maneira diferente de fracassar devido à presença da estrutura, o que leva a um giro de um quarto de volta nos esquemas e à mudança de um discurso a outro.
- A aposta que o ato analítico sustenta pode ser lida no matema do discurso do analista como o fomento a um trabalho da verdade no ser-falante e à possibilidade de um acontecimento contingente. O trabalho do saber inconsciente se realiza no falante que se dirige a um analista em função mediante sua exposição à ausência de resposta que a prática da interpretação, suportada por um simples semblante, lhe oferece. A tarefa analisante se dá no nível da linguagem. Entre as palavras se produz o trabalho cujo sentido obscuro a presença do analista indica: o da verdade enquanto desvelamento (alétheia); ponto de disjunção com o saber.
- O trabalho que uma psicanálise dá lugar não produz significantes-mestres que possam ter alguma relação com a verdade, mas cria as condições de possibilidade para um (diz)encontro marcado com o impossível de saber: um acontecimento contingente que uma psicanálise enseja, com o qual se poderia produzir o não-lugar onde a hipótese de que haja algo de analista se abrigaria: qual oferta de hospitalidade ao impoder que resguarda a verdade.
- O discurso do analista funciona com a abertura do objeto a no lugar de agente e opera com um saber no lugar da verdade. O sujeito ($), ao receber as reverberações de sua fala do parceiro-sintoma, histeriza seu discurso no ato de retomar a palavra. Nas repetições deste procedimento, se poderia desvelar um ponto de não-saber — a isso pode se dirigir uma análise —: um saber insabido, impossível de se saber, ao qual se poderia aquiescer na passagem de uma fala que busca o impossível, ressentindo-se em sua inevitável frustração, a um desejo causado pelo impossível; umbral do desejo de saber ao desejo do saber.
- A histerização do discurso promovida pelo ato do analista pode fomentar a produção de significantes-mestres em enxames (S₁ no lugar do produto) a fim de fazer existir a relação sexual, em uma busca pelo significante último que retiraria uma fala da indeterminação radical do desejo ou que explicaria definitivamente o sintoma do qual se queixa. Com os fracassos de suas tentativas, que se repetem ao longo de uma análise, permanece em potência a chance de um encontro com o Real, que apenas se insinua nas falhas de uma fala, e que poderia abrir passo ao des-ser — mediante a marca para o decesso — do fal.h.ante…
- Em uma das oportunidades em que aborda a questão da produção do discurso analítico, Lacan repara no que seria um sinal de sua impotência, ao produzir nada mais do que significantes-mestres (S₁), um fracasso atrelado à impossibilidade da posição que o analista se coloca ao tentar agir como causa do desejo. No entanto, deixa em aberto a possibilidade de que o discurso do analista pudesse fazer surgir um outro estilo de significante-mestre.
- O momento final do atravessamento da fantasia pode ser pensado no matema dos discursos quando, diante da angústia petrificante da castração, em lugar da emissão de significantes-mestres — ou significantes-de-ser — que viriam em auxílio do falante, se produza esse Um como pura diferença, marca de gozo destacada do conjunto dos significantes (o campo do saber [S₂] formalizado como em fôrma de a no seminário De um Outro ao outro), separada do objeto sustentáculo da fantasia que sonhara o vivente até ali. Advento da letra: em identidade de si a si: litorânea entre gozo e saber.
- O ato analítico com o qual um analisante passando a analista se produz instala-se com a leitura que permite ao acontecimento de sua passagem realizar-se. A letra, marca de angústia radical em um corpo, índice da solidão do falante, apenas entrevista em meio à vacilação do enquadre fantasmático no (diz)encontro com o Real, se desvela, sem se desvelar, como presença/ausência à margem dos ditos; causando um dizer: ex-sistente.
A potência, impotente, de um dizer de analista busca sustentar, em ato, o impossível de saber como causa do desejo; ponto de indeterminação que poderia desestabilizar as explicações que se oferecem como parco remédio à ausência de sentido de um sintoma, aos impasses atrelados a alguma inibição, à experiência da angústia.
Tal dizer, não se podendo dizer, destina-se a veicular a possibilidade de um enigma; ao alcance de uma mão; que se abre.
Referências bibliográficas
- LACAN, J. (1964). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
- LACAN, J. (1968-69). O seminário, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
- LACAN, J. (1969-70). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
- LACAN, J. (1971). O seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
- LACAN, J. (1971-72). O seminário, livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
- LACAN, J. (1977). L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Disponível em: staferla.free.fr. Acesso em: 20 jul. 2021.
- LACAN, J. O seminário sobre a Carta Roubada. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 13-66.
- LACAN, J. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 496-533.
- LACAN, J. Lituraterra. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 15-25.
- LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
- LACAN, J. Radiofonia. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 400-447.