Breve comentário às homologias d’um saber no Seminário De um Outro ao Outro
Rafael F. Atuati
A asserção “a essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fala/palavra”, apresentada na primeira lição do seminário ao qual se dedica este comentário, abre os trabalhos do ano de 1968/69. Essa fórmula condensa uma série de observações de ordem metodológica que Lacan desenvolverá ao longo do seminário e que procurarão responder às necessidades de um momento crucial para o discurso analítico. Entre as indicações que se podem recolher sobre esse momento, está o estabelecimento das bases que permitiriam à teoria analítica se situar como um saber — e ser ensinada como tal.
Lacan sustenta que, quanto ao discurso, o que interessa à psicanálise é a sua função; procura localizar a causa de um discurso em vez de seguir inadvertidamente suas trilhas; propõe uma regra de prudência à maneira de encaminhar uma pesquisa, como a psicanalítica, que inclui a noção de inconsciente: se assegurar do não pensamento como aquilo que pode ser a causa do pensamento4.
Nota 1: Con-siderações analíticas: uma fórmula que acaece em resposta a um trabalho. Um modo de implicação ao saber no qual se sustentam as ressonâncias de um pensar-com-uma-aposta: já-desaparecida — e recolher seus efeitos.
Nota 2: Texto produto de cartel dedicado ao estudo do seminário De um Outro ao outro, apresentado nas Jornadas de Cartéis de 2021, do FCL-SP.
Nota 3: Psicanalista, escritor, Membro do FCL-SP, da EPFCL Brasil e da IF-EPFCL.
Segundo tal método, já não se trataria de um movimento que buscaria exprimir determinadas ideias, mas sim causar o pensamento: mediante um ato.
O retorno a Freud proposto pelo encaminhamento de Lacan conduz a psicanálise a se reconhecer como uma modalidade de saber textual5. Se em um primeiro momento do desenvolvimento de sua teoria, foram nos escritos de Freud, produzidos em um cotejar do que se recolhia da experiência da clínica, que as noções fundamentais desse saber puderam adquirir alguma consistência, em um segundo, a partir da leitura que Lacan propõe do que Freud enunciou e da crítica realizada de outras leituras de sua obra, abre-se uma nova possibilidade: inverter os próprios princípios do questionamento6 que deu origem à psicanálise, com novas premissas e com uma exigência mínima: fazer psicanalistas.
Neste ponto, esta proposição de Lacan repetiria, de certa forma, uma necessidade discursiva presente desde a origem da dialética grega, com Sócrates/Platão, e atualizada em Hegel, na Fenomenologia do Espírito, como horizonte de seu discurso: inventar “seres” que pudessem conjugar os imperativos epistêmicos de sua época a uma doxa verdadeira. No caso do psicanalista, isso implicaria um reposicionamento do sujeito em sua posição autêntica: aquela que, desde a origem, coloca o sujeito na dependência do significante7.
A diferença sutil, no entanto, que marca a novidade do discurso analítico em relação aos que o antecederam, pode ser articulada como a sua orientação por um saber em fracasso8. Os desenvolvimentos propostos por Lacan em torno ao objeto a, trabalhado como objeto mais-de-gozar nas proposições do seminário em questão, ensejam ver essa diferença.
Uma conjugação entre o acúmulo da experiência analítica e determinados avanços no desenvolvimento do saber no campo da lógica-matemática possibilitaram a Lacan reencaminhar a pesquisa em torno ao sujeito do inconsciente para além da homologia que tecera até então com os recursos da linguística, aproximando o sujeito à noção de estrutura. No seminário De um Outro ao outro, Lacan vai se servir de novas homologias para relançar as questões do campo analítico.
A primeira homologia é construída pari passu com a leitura apresentada por Althusser e seus discípulos sobre o desenvolvimento da noção de mais-valia em Marx9. A abordagem estruturalista dos autores permitira ler o procedimento de Marx a partir de um corte na teorização da economia política; embora a noção de mais-valia já estivesse presente de forma difusa em autores como Ricardo ou Adam Smith, teria sido o rigor lógico da abordagem de Marx que permitira formalizar a mais-valia como conceito-chave para articular o que estaria em disputa na produção capitalista, fazendo-o operar como objeto de desejo e causa da contenda entre as classes dominantes e subalternas. Essa delimitação da mais-valia fora possível mediante a totalização de um campo — o mercado de trabalho —, a instituição de uma noção de sistema — o da produção das mercadorias — e a localização de papéis desempenhados por determinados atores.
Lacan decalca esse procedimento teórico para propor o funcionamento do discurso analítico e a produção que lhe seria própria. Neste, é a hipótese da totalização do campo do saber — também postulado como do mercado do gozo — que pode ser tomada como suporte para depreender a noção de mais-de-gozar como o objeto produzido por outros meios de produção: os da linguagem.
O estatuto do significante, como o que representa um sujeito para outro significante, torna-se necessário para sustentar essa articulação. O objeto mais-de-gozar permite isolar a função do objeto a na estrutura como a perda de gozo experimentada pelo falante resultante de seu aparelhamento na linguagem; e sua parca recuperação, a cada ato de fala, como efeito do próprio discurso.
Nestas condições, um sujeito não tem meios de se reunir com o significante que o representaria sem que se produza uma perda em sua identidade — o objeto a —, o que a teoria de Freud estabeleceu como repetição10. A noção de sujeito assim postulada implica considerá-lo sem identidade, sem “si mesmo”, assujeitado às palavras: advindo a uma existência fabulada em meio ao fluxo dos significantes; permanecendo, no entanto, à margem…
A subversão do sujeito proposta por Lacan, que não seria uma subversão do saber, como defendiam alguns nesse momento11, convida a con-siderar o sujeito como estritamente correlato à entrada em jogo do que determinaria o que acontece com o pensamento: a superfície escritural da qual s’emerge, sem poder… emergir-se.
A segunda homologia que Lacan lança mão para encaminhar sua pesquisa procura con-siderar as letras que orientam o discurso analítico com alguns procedimentos e noções da teoria dos conjuntos em matemática.
Lacan aproxima a teoria do significante à teoria dos conjuntos; a relação dos significantes entre “si” estaria mais próxima ao que nessa teoria se chama uma relação de pertinência, em que um elemento qualquer (denotado por uma letra minúscula) pode ser considerado como pertencendo ou não (∈ ou ∉) a um conjunto (denotado por uma letra maiúscula). E a noção de par ordenado (x, y), em que dois elementos são reunidos em um par e necessariamente considerados na ordem em que são escritos — instituindo um elemento terceiro: o par que não se resume aos seus elementos — é importada ao discurso analítico em seu dizer da relação significante: à qual um sujeito lhe é suposto ser representado.
Com as letras do discurso analítico, a relação significante pode ser notada na formalização do par ordenado como (S₁, S₂). Mas a própria definição mínima do significante impede que ele seja tomado como um elemento de um conjunto qualquer, pois é sempre em relação a outro significante que ele poderia não se identificar: ao fracassar em representar um suposto sujeito.
Isso permite a Lacan experimentar algumas notações a modo de formalização do significante e do campo do Outro recorrendo ao paradoxo de Russell, segundo o qual não se pode considerar como uma classe todos os elementos de um dado conjunto, na medida em que se possa escrever sobre cada um que ele não pertence a si mesmo {x ∉ x} — o que seria o caso do significante12.
Por questões de espaço, me limitarei a apresentar somente algumas consequências lógicas que Lacan propõe após demonstrar a impossibilidade, tanto do significante como do campo do Outro, de se conterem a si mesmos: a presença do significante impede que o discurso analítico forme uma totalidade, o que implica con-siderar o universo do discurso como necessariamente extraído de qualquer campo que pretenda totalizá-lo13.
A “essência” do Outro passa a ser inapreensível segundo o postulado do significante, pois o próprio movimento que se engaja em sua apreensão está marcado por uma falha; nisso está o que Lacan considera a questão decisiva do que ocorre com a falha no saber: “o sujeito depende do lugar do Outro para se garantir, e esse lugar da verdade é, em si mesmo, um lugar vazado”14.
A mensagem do Outro, Lacan a interpreta a partir de uma leitura do enunciado bíblico “Eyé acher eyé”, com o qual o Deus dos judeus se apresenta a Moisés na sarça ardente15, ao qual propõe a tradução “Eu sou o que eu é”16 — que estaria alinhada a seu aforismo “Eu, a Verdade, falo”17. Neste momento, Lacan desliza uma nova conotação a este aforismo, ao afirmar que a verdade fala: eu18.
Há uma diferença fundamental, que às vezes se perde nas escolhas da tradução ao português, mas que Lacan preserva em seu dizer, entre o que a Verdade fala e o que ela pode dizer. Eu, a verdade, falo deixa o verbo falar em uma função intransitiva; a Verdade fala — ponto; fala: para nada dizer; ela não poderia se dizer “Eu”; ela apenas pode falar, eu, como pura repetição, pura diferença: em fracasso.
Para chegar a essa interpretação da mensagem do Outro e realizar a crítica de sua função, Lacan precisou estabelecer sua topologia, da qual este comentário dissemina algumas notícias ao resumir as homologias que acompanham o seu dizer nesse momento de seu ensino. O campo do Outro como lugar de um discurso no qual se transmitem outros saberes é nomeado como o “Deus dos filósofos” — uma referência a Pascal —, um significante que viria tamponar o furo de onde a verdade se espreita, produzindo uma perspectiva ilusória da possibilidade de se chegar a um saber absoluto; a esta figura do pensamento, Lacan opõe-se à emergência desse dizer da Verdade — sem rosto — extraído da tradição bíblica.
De todo modo, tratar-se-ia menos de opor uma figura a outra, ou a sua ausência — o que poderia dar lugar a ares triunfalistas —, do que fazer operar um discurso que se sustenta mediante um ato — uma fé em outro pensamento…19 — que inventa as condições para que um saber, o do analista, produza determinados efeitos… na produção d’um: incurável.
Referências
- ALTHUSSER, L.; BALIBAR, E.; ESTABLET, R. Ler o Capital. Volume 2. Tradução de Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
- Bíblia de Jerusalém. Livro: Êxodo, p. 106-167. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.
- LACAN, J. (1968-69). O seminário, livro 16: De um Outro ao outro. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
- LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967, sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 248-264.
- LACAN, J. Lituraterra. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 15-25.
- LACAN, J. A Coisa freudiana. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 402-437.