Uma resposta escritural
Rafael F. Atuati
I. Um risco
Uma mão, pena em punho, risca as três primeiras palavras da pergunta; “o que é” devém “o que é”; o risco corta – apagando sem de todo apagar – as palavras; cria, na frase, uma primeira escansão. Convida-se a observá-la.
II. Um signo
Sobre a palavra “ser”, essa mesma mão – haveria que imaginá-la… – desenha outro traço, um signo da negação, deixando a cargo da leitura pronunciar a única palavra essencial do discurso analítico:
III. Dois pontos
A mão que não-escreve abandona o papel, apoia-se em outro lugar, marca dois pontos na superfície branca que suporta as palavras, criando uma segunda escansão – necessária – que aproxima, ao separar, o “ser” de “lacaniano?”.
O que resta:
O que é (não) ser: lacaniano?
Nota 1: Enquanto não se invente um signo capaz de, à maneira de uma partitura, permitir à leitura acompanhar uma certa modulação, um certo ritmo na enunciação que daria a entrever a presença, ausente, da marca deixada pela partícula da negação quando enunciada junto ao termo negado, nos atemos a propor esta nota sobre uma possível transfiguração da função do hífen nesse tipo de construção: qual um traço que se leria.
Coda²
- A figura da amizade se oferece a esta coda como recurso poético a fim de conjurar a função da explicação – à medida em que ocupa, provisoriamente, o lugar vazio daquela sob o pretexto de que se não outras… –, como mero aceno ao convite estendido à produção destas linhas: convocadas a se espraiarem a partir de uma questão comum sob um viés poético.
- O bom fracasso³ da resposta acima escrita poderia ser entrevisto num instante: no qual o advento da leitura, aos gestos de uma mão inexistente, ter-lhe-ia acrescentado uma voz.
- À imagem dessa mão, este fugaz complemento apenas se estende para insinuar um ideal comum em que tanto o discurso analítico como o espaço literário partilhariam: um discurso sem fala; uma escrita sem linguagem.⁴
- Se ela fosse transmissível, a resposta, poderia, ela também, ser abordada como uma imagem: desde que a leitura alcançasse a não-leitura – esta, a ser acolhida em chave foraclusiva, silenciando a leitura a tal ponto em que pudesse restar, somente, o real d’um dizer: d’uma imprópria leitura.
- Talvez, esse gesto impossível se apreendesse num instante; mas, não podendo ser transmitido, recorreria à função vivificante do itálico com a qual já outro gesto procuraria, em vão, dizer d’um impossível: d’um fundador da experiência: d’uma não-experiência.
Nota 2: À referência erudita de coda, preferimos outra, anterior, mais próxima a um literal litorâneo no qual os sentidos nessa seção fabulados encontrariam seu ocaso.
Nota 3: Convocamos a fórmula barroca tantas vezes usada por António Vieira – “bom sucesso” – para acompanhar, na distância desta nota, a que figura no corpo do texto – “bom fracasso”. Talvez, à suspeita de redundância, na primeira, ou de contradição, na segunda, o discurso analítico e a figura do barroco saberiam desdenhar: com um riso comum.
Nota 4: Sobre a noção de um discours sans parole, propomos acompanhar o dizer de Lacan em O seminário, de um Outro ao outro, livro XVI, lição de 13 de novembro de 1968; sobre a perspectiva de uma écriture hors langage, conferir o escrito por Maurice Blanchot em “L’athéisme et l’écriture – L’humanisme et le cri”; in: L’Entretien Infini, p. 367-393.
- Aqui⁵, a não-experiência convocaria outra vertente de leitura da negação, aquém da foraclusiva (epifânica): uma via discordancial, umbral d’um confim⁶: singular. Daí, abrir-se-iam possibilidades a um dizer um pouco mais verdadeiro; a um-nomeado.
- Este espaço aberto, entre duas negações, bem poderia deixar-se acompanhar por outra figura, cara a Lacan⁷, a fim de – não mais, não menos – apenas acolher um certo brilho irredutível junto ao que se pretenderia dizer; uma opacidade, ao fim; uma figura: entre duas mortes.
- Neste lugar sempre por vir, do qual um percurso de uma análise poderia evocar o tempo de um preparar, um outro ideal haveria de saber, ali, se reconhecer: e, em sua passagem, algo dizer.
- A estas linhas, que assim se despedem, importaria menos como, a essa invenção, sa⁸ nomearia. Um: poeta? Un vrai lacanien? Um novo: revolucionário?⁹
- Importaria mais dizer: …: t’espérons.¹⁰
Rafael F. Atuati
Nota 5: Hegel, na Fenomenologia do Espírito, soube doar ao “aqui” e ao “agora” o lugar do impossível; não discordamos…
Nota 6: Cf. Lacan, “O Aturdito”; in: Outros Escritos; p. 467.
Nota 7: Cf. o comentário de Lacan à Antígona, de Sófocles, em O seminário, A Ética da psicanálise, livro VII.
Nota 8: Se + a; contração não reconhecida pelas gramáticas portuguesas, embora algumas a mencionem como arcaica. A língua espanhola não teria dificuldades em articular: se la nombraría.
Nota 9: A escansão ensejada pelos dois pontos pretenderia acenar ao Um real que acompanha; Lacan o rebatizou como o Yad’lun (Há-um) e lhe assertou um apelo: um rechaço ao Ser. (Cf. O seminário, … ou pior, livro XIX; p. 177).
Nota 10: Na impossibilidade destas linhas se servirem das mesmas figuras que os Antigos souberam nomear, a primeira pessoa do plural resta como recurso poético em busca de um res-soar, via um efeito-sentido d’um: ocaso.